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 Terapia comportamental: um pouco do muito que é
Luiz Guilherme Guerra
(Texto publicado no site de Veja SP: blog de Arnaldo Dias, Em Terapia)

Costumamos ouvir que a terapia comportamental seria mais breve e eficaz do que outras abordagens da psicologia para tratar sintomas que transtornam o dia a dia, como ansiedade, pânico, depressão e impulsividade. Nós, terapeutas comportamentais, temos a imagem de práticos porque respeitamos o sintoma como uma queixa clínica válida para ser diretamente tratada. Mas há também outro motivo para esta imagem. A terapia comportamental não privilegia necessariamente a origem remota de um sofrimento psíquico. Os motivos presentes e recentes do sofrimento costumam ter também muita importância. Além de investigar a origem, sempre temos o olho bem aberto para o que mantém uma queixa psicológica.
Mas qual é a particularidade do olhar treinado do terapeuta comportamental? Como ele estrutura aquilo que ouve no consultório? Basicamente, o terapeuta visa desvendar e reorganizar a relação do comportamento com seu ambiente – notadamente com o mundo externo com o qual o comportamento faz trocas significativas. As palavras-chave, aqui, são ambiente e comportamento. O ambiente engloba o entorno social, familiar, amoroso e ocupacional, que são fortes fontes de recompensas e punições. Já o comportamento abrange desde respostas motoras a pensamentos, da birra de uma criança à mais alta produção literária, dos atos públicos aos sentimentos mais secretos. 
A elucidação das queixas clínicas recai, então, sobre como a interação comportamento-ambiente formou e atualmente mantém certo repertório de comportamentos do paciente. E tais queixas – desde sintomas patentes até questões existenciais – são analiticamente convertidas em comportamentos, que trazem em si substancial teor emocional. 
E o que dá fundamento ao trabalho analítico de um terapeuta comportamental? Principalmente vários conceitos derivados de pesquisas científicas compõem o nosso ferramental perene. Um conceito considerado basilar descreve um importantíssimo processo de aprendizagem chamado de condicionamento instrumental ou operante. E o que este condicionamento especifica? Simplificadamente, que tanto o contexto como as consequências relevantes de nossas ações alteram, de modo previsível, a ocorrência destas mesmas ações no futuro.
Sobre este primeiro processo, erguem-se novas leis gerais do comportamento. Por exemplo, quando as consequências pelas quais se batalha surgem apenas de vez em quando, produz-se tanto comportamento insistente quanto comportamento resistente à frustração. São como dois lados de uma mesma moeda. Não cabe aqui uma exposição mais detalhada, mas bastaria dizer que tal lei participa de fenômenos de amplíssimo significado e incontável variedade. De um lado, entra aqui o caso comum do namorado obcecado por uma parceira que tenta ter autonomia mas sucumbe ao cerco emocional. Assim, a insistência do namorado aumenta à medida que a namorada dificulta, mas permite que sua autonomia seja invadida. De outro lado, uma história positiva de ações que produzem consequências infrequentes promove a tenacidade desejada em profissionais responsáveis.
Para além dos exemplos acima, dezenas de blocos conceituais se encaixam para que o terapeuta possa entender do paciente seus sentimentos, limites, potencialidades e motivações. Estando nítido o quadro clínico, cabem intervenções com função de dicas, contanto que sejam discutidos prós e contras previstos. Sim, terapeutas comportamentais dão conselhos, o que vai contra a imagem popular do terapeuta neutro. Reconhecendo-se como um tipo particular de ambiente para o paciente, o terapeuta também assume o papel de ambiente ativo que a abordagem sustenta.
Talvez já tenha chegado a algum leitor a crítica de que a terapia comportamental seria por demais concreta, e mesmo superficial, pois muitos de seus conceitos vieram originalmente de pesquisas laboratoriais baseadas em comportamento e linguagem muito simplificados. Para os comportamentalistas, isto é, porém, uma vantagem, considerando que há evidências de processos de aprendizagem que perpassam as mais diferentes espécies, incluindo a nossa. A clínica produz seu próprio corpo de conhecimentos, e sua função obviamente não é fazer ciência. Contudo, ela segue um modelo de análise que historicamente tem um pé fincado nos preceitos científicos básicos.
A terapia comportamental, em uníssono com outras abordagens psicológicas, resguarda ao paciente a dignidade do falar livremente de si. Sua especificidade está em ver o mundo psicológico a partir da dependência e interferência mútua entre ações pessoais e eventos exteriores às ações. Patológicos ou normais, sintomáticos ou existenciais, os comportamentos em boa medida são o que são devido ao elo com o ambiente condicionante. Por este motivo, na clínica comportamental são examinados e refinados os seguintes pontos: padrões de interação do paciente com pessoas ou grupos; contextos em que comportamentos relevantes ocorreram no presente e no passado; quais sentimentos estão ligados a quais eventos; e como atitudes, palavras e sentimentos do paciente afetam outras pessoas (e vice-versa). Estas não são indagações de protocolo, feitas na forma de perguntas e respostas diretas. São parte das questões que estruturam e norteiam o trabalho do terapeuta comportamental. Imiscuídas nos fundamentos aqui ligeiramente descritos estão as experiências intangíveis da sensibilidade de ouvir, falar, intuir, calcular possibilidades e relacionar elementos aparentemente independentes.




 
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